Resenha - Caixa de Pássaros

Livro: Caixa de Pássaros
Autor: Josh Malerman
Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Sinopse: Romance de estreia de Josh Malerman, Caixa de pássaros é um thriller psicológico tenso e aterrorizante, que explora a essência do medo. Uma história que vai deixar o leitor completamente sem fôlego mesmo depois de terminar de ler.
Basta uma olhadela para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Ninguém é imune e ninguém sabe o que provoca essa reação nas pessoas. Cinco anos depois do surto ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ela sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas a viagem que tem pela frente é assustadora: uma decisão errada e eles morrerão.





O livro conta a história de um mundo pós apocalíptico, de recursos escassos, onde as pessoas sobreviventes acreditam que há criaturas espreitando fora de suas casa. Tais criaturas são capazes de enlouquecer qualquer um que seja apenas capaz de olhar para elas. Não se sabe quem são, de onde vieram e o que pretendem; mas sabe-se que elas causam a loucura extrema e fazem as pessoas encararem seus próprios medos. Por isso, os sobreviventes vivem dentro de suas casas, trancados, sem janelas abertas. Quando saem pra rua, o fazem de olhos vendados.
Caixa de Pássaros é um livro tenso. Não chega a ser assustador (embora eu realmente tenha sentido medo algumas vezes), mas te deixa num estado de alerta e suspense durante toda a leitura. Você sente o medo dos personagens, sua tensão, seu nervosismo. O autor foi brilhante em conseguir nos passar essas sensações, que pra mim é o ponto alto dessa história brilhante e bem construída.
Começamos a história com Malorie, protagonista do enredo, tomando a decisão de fazer uma viagem de 3 quilômetros através de um rio para chegar a um lugar seguro para si e as duas crianças de quatro anos que vivem com ela (Garoto e Menina, afinal nesse novo mundo ter nome é um luxo). O autor alterna a narrativa entre o presente (a árdua jornada de Malorie e as crianças) e o passado de Malorie, como ela sobreviveu ao caos, como suas relações foram construídas durante os quatro anos que levou entre a aceitação de um novo mundo que lhe causa medo e a decisão de navegar rio abaixo de olhos vendados, contando com os ouvidos bem treinados das crianças.

“Quão longe uma pessoa consegue ouvir?”

Malorie treinou essas crianças duramente para confiarem apenas em seus próprios ouvidos. É com essa ferramenta que os três, corajosamente, decidem enfrentar a jornada rio abaixo. Através da audição das crianças, eles percebem que há algo à espreita, há algo que os está seguindo pelo rio. Vagarosamente, essa coisa está se aproximando deles. A criatura, o barulho do rio, dos pássaros, das árvores; absolutamente tudo se torna extremamente assustador. Durante essa jornada, na qual Malorie pensa e repensa suas decisões e tudo que fez para chegar ali, é que temos acesso às suas lembranças e a narrativa passa a seguir também a vida de Malorie a quatro anos atrás: a relação com sua irmã Shannon, com seus pais, a descoberta da gravidez e, finalmente, a aceitação de que ela não vive mais em um mundo conhecido e confortável, concretizada na morte da irmã que aparentemente viu uma das criaturas e se matou. Malorie dirige vendada até uma casa onde havia um anúncio de lugar seguro, e passa a morar lá com mais cinco pessoas: Tom, Don, Felix, Jules e Cheryl. Malorie é recebida nessa casa inicialmente com cautela e desconfiança por conta da gravidez, mas logo se adapta à rotina do lugar. Eles dividem as atividades e tentam sobreviver com poucos recursos. Tom é o personagem que ganha mais destaque, e é notável que é a pessoa por quem Malorie nutre mais afeição. Vamos convivendo com esses seis personagens, descobrindo detalhes e algo da personalidade de cada um, como eles sobreviveram à crise, suas histórias pessoais.
À medida que o autor narra a vida de Malorie com essas pessoas, alterna também para a travessia de Malorie no rio com Garoto e Menina. É assim que temos acesso aos medos de Malorie, aos pensamentos que a rodeiam enquanto ela está no rio, sem poder enxergar.

“Faz anos que a única coisa que você pode ver são os rostos dos outros moradores da casa e dos seus filhos. As mesmas cores. As mesmas cores. As mesmas cores há anos. ANOS. Está preparada? E o que mais assusta você? As criaturas ou você mesma, quando as lembranças de um milhão de cores e imagens inundarem sua mente? O que mais assusta você?”

A narrativa não cansa em nenhum momento. Aliás, o autor sabe exatamente onde parar um capítulo do presente para adentrar em um capítulo do passado de Malorie, sem nunca perder o ritmo, sempre nos mantendo alertas e interessados na história. Quando parece que a vida dos moradores da casa vai cair na mesmice, com as mesmas atividades e poucos assuntos novos para discutir, o autor acrescenta mais elementos à história, novos personagens que movimentam e revelam sua importância no desenrolar da trama.
Caixa de Pássaros é realmente um livro que deve ser lido de vez. Não apenas pela facilidade da leitura, mas porque realmente você não consegue largar a história e, quando se vê obrigado a fazê-lo, pensa nos personagens, se preocupa com eles, pensa em como tudo isso terminar. Josh Malerman nos entregou uma obra digna de ser devorada e apreciada em muitos níveis.

A partir daqui, a resenha segue com spoilers.

Os novos personagens acrescentados à trama são Olympia e Gary, cada um muito importante à sua maneira.
Olympia aparece primeiro. Assim como Malorie, está grávida, o que faz com que Malorie sinta um certo alívio. Afinal, ela se sentia um incômodo com sua gravidez num local em que tudo o que as pessoas menos queriam era uma mulher que traria mais uma boca para alimentar. Mas Olympia acaba se adaptando também ao lugar e faz de Malorie sua grande amiga. Vemos as duas personagens se aproximando por conta da situação semelhante que vivem, e trocando angústias, dúvidas e medos não apenas sobre o mundo em que estão vivendo, mas também sobre a gravidez. Fica implícito a preocupação das duas sobre como cuidarão de crianças nesse mundo novo.
Mas é Gary o personagem que realmente movimenta a trama e traz novos elementos e informações para os moradores da casa. Gary aparece em uma noite, acordando os moradores, fazendo-os discutirem se aceitariam ou não mais um membro. É aqui que começa a haver uma rachadura no grupo. Don é claramente contra a ideia de mais uma pessoa na casa, com os recursos escassos. Não há como ter mais uma pessoa ali. Mas, numa votação equilibrada, Gary acaba sendo aceito, e é então que as coisas ficam estranhas. Gary conta sobre a antiga casa em que morava, conta como um dos membros enlouqueceu e abriu todas as janelas. Todos se assustam, mas logo esquecem a história, exceto Malorie e Don. Porém, é interessante notar como os dois reagiram de maneiras diferentes à história contada por Gary. Malorie, talvez por estar preocupada com a vida que está gerando e querendo um mundo relativamente melhor para essa criança, começa a desconfiar de Gary. Enquanto isso, Don fica cada vez mais interessado nas histórias de Gary,aproximando-se cada vez mais do mesmo. Começamos a perceber o quanto Don já vinha sendo afetado pela forma como vivia nesse novo mundo dominado pelo medo, o quanto isso o estava consumindo; a chegada de Gary acaba sendo a alavanca que impulsiona a loucura de Don, que faz com que essa loucura venha à tona. Malerman constrói isso com uma maestria incrível: a descoberta de Malorie de que talvez o próprio Gary tenha sido aquele quem abriu as janelas e portas da antiga casa, a decisão do grupo de expulsar Gary da casa e a reclusão de Don no porão após a expulsão do “amigo”. Essa situação, essa tensão, vai crescendo e tomando forma, e tudo explode no dia em que Malorie e Olympia dão à luz (sim, as duas juntas!). A cena é narrada com perfeição: o parto doloroso; Gary que na verdade esteve escondido no porão o tempo todo e conta sua história à Malorie, conta como já viu as criaturas, já conviveu com elas lá fora e nunca foi afetado (embora, na verdade, eu ache que ele já esteja louco); a loucura de Don que faz com que ele abra as portas e janelas no momento do parto, fazendo com que as criaturas entrem na casa; Olympia, que vê uma das criaturas e enlouquece, e entrega sua filha à Malorie como último ato de sanidade. Apenas Malorie sobrevive ao caos. O destino de Gary não sabemos. É, após tudo isso, que Malorie recebe o telefonema de Rick, informando sobre um lugar seguro que fica num lugar em que Malorie precisa atravessar o rio. É assim que descobrimos como Malorie, Garoto e Menina chegaram ao rio, o motivo de eles estarem se submetendo à tudo isso, como ela bravamente criou os filhos, como se virou sozinha para cuidar deles, presenciando a morte dos amigos, presenciando a loucura de Victor (um cachorro do grupo) e ficando perto de uma das criaturas numa narração de tirar o fôlego. É assim que chegamos ao ápice da viagem dos três no rio quando, após presenciarem a loucura de um homem que viu as criaturas, ouvirem os pássaros enlouquecerem, sentirem a criatura tocá-las, Malorie finalmente abre os olhos.
A cena final, tão contestada por alguns leitores, pra mim foi ótima e confesso que me arrancou lágrimas. Afinal, por mais curiosos que a gente fique acerca das criaturas, o livro jamais seguiu na direção da descoberta de quem ou o que eram essas criaturas, e sim na jornada de Malorie e das crianças para alcançarem um lugar seguro.

“Com o que está preocupada? Já não ficou tão próxima delas? Já não ficou tão próxima de uma criatura que achou que podia sentir o cheiro dela?
Você acrescenta os detalhes É a sua noção de como é a aparência delas. Você acrescenta detalhes a um corpo e a uma forma, mas não faz nenhuma ideia de como são. Cria um rosto que pode não existir.”

Afinal, as criaturas despertaram nossa curiosidade, mas não eram o tema central da narrativa, nunca foram. Os humanos eram o centro, Malorie era o centro, encarar os próprios medos era o centro, a busca pela redenção e um lugar seguro era o centro. E Malerman cumpriu bem o papel, nos entregando uma cena final linda com a confirmação de que eles se sentem seguros quando Malorie finalmente dá nome às crianças, Olympia e Tom.
Eu realmente adorei a experiência de ler Caixa de Pássaros. A leitura é fluida, rápida, cumpre seu papel e não me decepcionou em nenhum momento. Se gosta de suspense, recomendo a leitura desse livro. Não vai se arrepender!
 

2 comentários:

  1. Olá!
    Estava procurando um livro de suspense, vou ler Caixa de pássaros, parece ser bem legal!
    Aah, obrigada por ter colocado ''A partir daqui, a resenha segue com spoilers.'', como vou ler preferi não ver essa parte! <3

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    1. Leia Caixa de Pássaros, May, você vai gostar <3
      Sim, eu coloco justamente pra isso, haha. É bom fazer tanto pra quem leu como pra quem não leu.
      Beijos <3

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